Amigo argonauta,

Em Contos da rua 7 há muitas histórias intrigantes, emocinantes, algumas misteriosas e outras banais. Histórias que se entrecruzam e que revelam um pequeno, mas complexo universo comum/incomum de uma rua de Teresina: as casas, as famílias, os amigos, os amores, as paixões, os bares da esquina, os crimes, o suicídio, os loucos, as putas; os moradores de aluguel e a lama e as horas, e os dias e os anos... Tudo seria apenas ficção, se o fantasma da realidade não revitasse a memória.
Sugestão: inicie pelo conto 1.

22/10/2009

Conto 8: O Dito

O Dito
Não era o menino que consumia a droga, era ela silenciosa e faminta que o devorava. No começo, pouco a pouco, e mais tarde, voraz. A droga  o seduzia, mas ia naturalmente cobrando o preço do seu amado possuidor, e ela o prendeu em seus braços de morte, desfigurando o corpo, a mente e alma do Dito. A família no inicio assustada e envergonhada, queria, como se pudesse, esconder dos vizinhos aquilo tudo.
 Uns tinham pena e a maioria esganiçava cruel a pouca sorte do garoto. Nos anos que se seguiram, a mãe e os irmãos somente assistiram passivos, piedosos e sem compreender o que era o ser humano, quando se imagina chegar no fim da linha. Ele roubava, fugia de casa, agredia, se mantinha constantemente em confusão, era preso. Na cadeia era espancado toda vez que ia para lá, os policiais comiam fogo com ele, por isso não tinham pena. Seu Rodrigo, policial da vizinhança, disse uma vez que ele parecia um cão danado, “esse aí tem parte com o demo” “é raivoso demais”. “É corpo dominado pelo mal”.
Nos festejos de São João no ano de 1985, ele roubou um relógio e a carteira de um homem de um bairro vizinho que viera com a família se divertir.  Não agrediu nem disse mal, mas não teve pena dos apelos do homem e roubou como relatou a um vizinho. Dito, como os demais metidos com o crime, não gostava de roubar a vizinhança, “aqui a gente protege os nosso”, no entanto era impiedoso com pessoas estranhas visitando o trecho. Mas aquela vítima tinha meios, ou melhor, amigos na polícia e não foi difícil chegar nele. Pegaram Dito na parte de cima da rua 7. Ele que já era familiarizado com uma turma chegada na ilegalidade, estava muito a vontade com grana no bolso e baseado. A polícia não conversou muito não, pegou e prendeu. Soubemos depois que bateram muito nele, que lhe quebraram as costelas e uns dentes.
Não sei explicar porque não esqueci nunca do Dito menino, eu achava ele um garoto diferente. Eu era muito menina, mas mesmo assim estava sempre no meio dos grandes. Um dia de noite, lá em casa, estávamos sentados em volta da mesa de jantar brincando de jogo e foi em um dado momento que olhei pro Dito e vi algo incomum nele, achei-o grande e forte e imaginei que um dia ia namorar com ele.
Dito fora realmente um jovem bonito que a droga sucumbiu. Ainda com 12 anos, tinha jeito de homem grande. Anita, filha de dona Nicéia, bem o conhecera na cama. Se encantou com Dito depois de vê-lo feito um galo de briga derrubar  com uma rasteira de capoeira o Necão da Vermelha, indivíduo violento e cheio de confusão. Dito humilhou o outro com a rasteira e foi por causa de um xingamento. Lá na festa,  ela viu nele algo que só avistou no finado marido vivo. Mas o que ela ouviu na festa sobre o Dito foi que lhe atiçou os sentidos. “Esse aí tem encosto de cangaceiro” “tem coragem de homem feito, o moleque” Anita, mais tarde, no final da festa, meio embriagada de rum, aproximou-se sedenta e provocou que se quisesse fazia dele homem de verdade, mas que ele tinha que ser esperto pra pular a cerca do quintal de sua casa e entrar pela janela. Dito riu e disse que ia sim e que Anita ia ver se não tinha tamanho de homem. Fizeram amor até às seis da manhã. O menino tinha um fogo que cause matou o dela naquela madrugada. Anos mais tarde, Anita confidenciou a minha irmã que dormiu com Dito pelo menos umas dez vezes. Anita não se importava de falar as coisas na frente de crianças, talvez achasse que não entenderíamos, mas eu que parecia distraída, gostava era de ouvir aquelas estórias meio que de segredo, ainda mais se fosse estória sobre o Dito. Contou que só largou dele, porque a droga que se apossava mansa foi tomando conta de tudo na vida dele. Uma vez confidenciou achando vantagem que num dia de muita chuva e trovoada, ele bateu na sua janela, foram para o quintal, ficaram nus, fizeram amor apoiados no giral de dona Nicéa, e que a chuva estava muito forte e fazia muito barulho, e que ninguém da casa podia ouvir os gritos e gemidos por causa da tempestade, contou ainda que ele segurava pelos cabelos dela com força. “Ele me olhava com aqueles olhos escuros e famintos de desejo” “Aproveitei, mermã” “Dito é homem mesmo!
Quando Anita ficou grávida de novo, a mãe xingou muito a falta de juízo, quis saber quem era o traste com quem ela havia dormido, mas ela não revelou pra ninguém, só as colegas sabiam que era o menino Dito. Dona Nicéia teve que criar dois moleques, um loirinho meio sarará e o moreninho com cara de índio. Por muito tempo, achei que Anita era apaixonada pelo Dito, até que ouvi minha irmã falar pra ela ajudar ele, que talvez assim largava o vício, mas ela foi taxativa: “esse tá é sem jeito” “E eu vou é caçar home de verdade que sustente  meus menino”. Por qual boca ela disse aquilo? Não é que o Dito se afundou mesmo, um caso muito difícil, eu o vi muitas vezes, já rapaz, sendo preso e apanhando da polícia. Anita foi embora, quando se casou com um homem mais velho que ela e foi com ele e os filhos morar no norte do país, foi morar em Marabá, no Pará.
O afundamento do Dito foi ligeiro. Ele se distanciava de nós todos. Muita gente falava mal dele e eu não compreendia direito tanta falação. A rua 7 que alguns alcunhava de “rua do grotão” fazia de desafortunados como o Dito alvo de escárnio e fofoca. Nesses momentos minha rua era apenas a boca de lobo hostil e fedorenta que devorava meninos incautos.
Dona Dulcinha, mãe do Dito, vivia acabada e os irmãos eram só silêncio e vergonha.  O sofrimento dela aumentou quando o filho mais velho dela, Dioderso, morreu vítima de atropelamento de caminhão no cruzamento da Miguel Rosa com a Valter Alencar. Todo mundo da 7 correu pra olhar o pobre rapaz com os miolos espalhados na pista. Quanta lamentação foi naquele dia. Depois eu vi Dito no velório, de cabeça baixa, parecia não estar se importando muito com a morte do irmão. Mas devia só parecer, a culpa era da droga que fazia ele ficar distante até na dor da morte.
Lá em casa, minha mãe sempre tratou o Dito bem, nunca disse nada com ele, Dito ia muito lá brincar com meus irmãos mais velhos; só que com a situação dele piorando mamãe pediu pros meus irmãos ir aos poucos deixando de andar com ele e com os outros meninos que estavam metidos no fumo na outra rua. “Trate bem, porque são amigos de infância, mas nada de sair junto”. Dito não tinha mal coração e penso que entendeu que não podia ser o que era e continuar no meio da molecada. “Laranja podre não tem de ficar no cesto”. Ele aos poucos desapareceu da rua e quando ouvíamos algo sobre ele era no jornal, em outros tempos, o vi  no programa do Carlos Feitosa. Dito estava acabado, feio, abatido e consumido de droga. Eu não sei porque sentia meu coração angustiado, quando minha mãe vinha contar algo ruim que tinha acontecido. Até hoje sinto esse aperto ao falar do Dito, ele com aquela alma boa e gentil como podia afundar assim. Se volto no tempo, tenho a imagem do menino sadio e forte que era para depois ver o homem velho e destruído do presente.
            Mas mesmo dentro do vício, ele conseguiu manter uma vida paralela em família. Casou com a Ângela, o que ninguém nunca entendeu como podia uma moça meiga e bonita como ela ter coragem de casar com o Dito. Viveu mais ou menos uns vinte anos com ele e testemunhou vítima e passiva o definhar dele. Nunca conversei com ela, apenas a cumprimentava quando aparecia na rua. Mas minha mãe fez amizade e relatava o sofrimento da moça e como ela era paciente e suportava a vida dura que tinha com ele. Eu, por minha vez, achava ela muito estranha, via nela uma energia que não sabia distinguir, se era força ou apenas passividade. Houve um tempo que eles moraram na rua 7 numa casa bem pequena de aluguel, uma depois da casa de minha mãe. Muitas vezes, ele quebrava tudo, drogado e enlouquecido, gritava, mas não se escutava nada da parte dela. A viatura chegava, levava preso e dois dias depois ele voltava e viviam de novo. Ângela e Dito tiveram três crianças, todos muito parecidos com ele, e ela contrastava de sua sofrida família, era muito branca e pálida, com aquele cabelo claro, comprido e desarrumado.
            Dito envelheceu rápido. Ficou quase decrépito. Aquela força que o fizera viril quando jovem foi se apagando. Como se a vida não tivesse tido nenhuma pena nem do menino bonito e alegre e nem do jovem inquieto e eufórico. Dito, ainda aos trinta e cinco anos, mais parecia um velho maltratado com mais de sessenta. Magro e desdentado, mancando de uma perna, ocasionado por um corte de facão em uma de suas muitas confusões de juventude. Ele de vez em quando aparece na casa de minha mãe, faz uns serviços, pede ajuda, almoça. Eu converso com ele se estou por lá e tenho curiosidade de perceber algum resquício daquele menino de antes, que marcou minha memória de criança. Não vejo nada. Nem mesmo uma pequena fagulha. O seu passo manco, a sua voz de velho embriagado e seu olhar triste e cabisbaixo se perpetuam. Outro dia, disse com lágrimas nos olhos, que Ângela tinha mandado ele embora e que estava vivendo de favor num quartinho de fundo, na casa da mãe. Não consegui ter pena dele. Só vejo um homem vítima de sua própria insanidade e rebeldia. Penso no alivio de Ângela por ter se libertado de tanto sofrimento.
Mas de uma hora pra outra, Dito começou a parar de fumar e de usar qualquer outro tipo de droga, os vizinhos contaram admirados. Nele não há mais o que devorar definitivamente? Até outro dia só bebia até cair, dizendo que era por causa da mulher.  De repente, parou também com a cachaça da venda do Nezin.  Acorda cedo e vai trabalhar e o povo comenta sempre dele. “Os isprito ruim cansaram do infeliz”.
                             

21/08/2009

Conto 5: Naldo no espelho

Naldo no espelho
Quando Naldo chegou na rua, a mulherada ficou agitada. Aquele jovem alto, de aparência viril e ar de menino era uma novidade boa demais pra ser verdade. Ele viera trazido por aquela família maranhense que, provavelmente, desconhecia os perigos dos tempos de chuva da rua 7. Ali naquela época, alguém só comprava casa desavisadamente, achando que tinha feito excelente negócio. Alguns moradores antigos da rua até achavam graça, vingança de pobre é rir da desgraça alheia, que é a sua própria. “Mais um pra se alagar”. Se soubessem teriam mesmo comprado a casa da D. Totonha? O velho Luís mesmo teve muita raiva quando descobriu o mal feito. Assim que as primeiras chuvas vieram, foi logo arrasando com tudo que eles tinham trazido, a mulher xingou muito o marido e maldisse a sorte de ir morar naquele buraco, “Um grotão!” Diziam que ela queria ser muita coisa, “loira daquele jeito” “os filhos bem bonitos, tinha que ser mesmo”. Eu me lembro bem dela, uma senhora enérgica, mas carinhosa, alegre. Ia sempre brincar com suas filhas na casa dela. Quando o velho Luís morreu de cirrose, assim que pôde vendeu a casa e foi morar na zona leste. Mas aquela chuva de estréia deles foi logo que terminou a reforma da casa, aquela chuvarada, muito comum pelos meses de setembro e outubro. Foi uma alagação daquelas de derrubar muro, arrancar porta, um prejuízo de dar dó, as pessoas que não tinham as portas arrebentadas ficavam ilhadas em suas próprias casas. A chuva derramava um berreiro sem fim e em pouco tempo chegava até a avenida Valter Alencar. Nessa hora o povo da rua se enervava, outros faziam molecagem da própria miséria e falta de sorte:
“A sete é uma piscina, minha gente!...”
“Valei-me, minha Nossa senhora!...”
“Eita, diacho, que hoje eu nado...”
“Te aquieta, menino do cão, num tá vendo quessa água é só lama de merda e óleo das rua de cima!...”
“Vamo rezar, minha gente, vamo rezar... pra ver se São Pedro tem pena...”
“Seu Zé, Me ajude aqui, homem de Deus...!”
“Ô, minhas panelas...meus pratos tudo!!!...”
“A parede da casa da D.Chica caiu, vixeee...”
“Acudam a mulher, meu povo,... e as crianças tudo pequenininhas! ...”
“Eiiiiiiiiiiita, agora é que ficou bão, sem luz!...”
“Mãe, pai, tô cum medo...”
“home num tem medo, deixe de ser abestado, hum!”
O pai do Naldo, quando chegou a sua vez do batismo da lama da chuva, muito indignado disse que se soubesse a verdade nunca teria comprado. Sei não... o próprio marido de D. Ilza, o finado Luis, havia adquirido aquela casa assim, meio que por engano. Melhor dizendo: querendo se enganar, e comprou e reformou. Ficou bonita e era uma das melhores casas dali. E foi assim que os novos inquilinos chegaram a nossa rua. Compraram e também reformaram. A casa branca ficou mais alta e ganhou uma pintura na frente alaranjada com porta e janela verdes. Era uma família do interior e com certa condição. Cinco rapazes e quatro moças. Dentre eles, o primogênito chamava atenção pelo porte, a pele morena clara e músculos de rapaz de academia. Eu mesma prestei atenção naquele jovem mais velho que eu. Ele passava sempre de manhã em frente a minha casa, ia comprar cigarro. Tinha um caminhar acelerado, trazia a cabeça sempre baixa e não cumprimentava ninguém. Quando retornava, trazia cigarro no bico e dava baforadas repetidamente. Por muito tempo eu e minhas colegas pensamos que ele era metido. “Só quer ser, né, mermã!”. Apesar de olhá-lo de vez quando, eu acabei tirando o sentido dele e por um certo tempo eu não o vi mais. Nessa época já trabalhava pra ajudar em casa, tinha uma vida agitada. Também foi por essa época que fui embora pra serra dos Carajás, fazer um estágio.
Um anos depois, já de volta e morando na casa de vovó, de dentro da casa, eu revi o Naldo, sentado na calçada da própria casa, parecia muito distraído e distante. Saí. Naldo se olhava num espelho pequeno e não se importava com a minha presença do outro lado e nem das pessoas que passavam e olhavam para ele. “Que rapaz narcisista”. Pensei e entrei. No dia seguinte, eu pude vê-lo de novo na mesma posição. O espelho, ele se olhando e o ar distante..., o espelho era outro, baratinho, talvez comprado no mercadinho do Quilé, de moldura retangular e alaranjada. E não é que numa manhã de sábado e calor, em que me encontrava sozinha em casa de vovó, distraída lendo Gabriel García Marques, o Naldo me aparece do nada, do meu lado esquerdo, a voz próxima e um pouco acima da minha cabeça me sobressaltou.
“Lílhiiiia...” Ergui o olhar e, diante de mim, estava aquele homenzarrão apenas de calção, sem camisa e um aspecto de abandono e susto.
“...Tudo bem...” tentei parecer calma”
“... Lilhiiia, Lilhiia... moça de fibra...”
Naldo falava assim querendo ser suave, arrastado e ao mesmo tempo parecendo temer ser surpreendido por alguém ou alguma coisa. Por minha vez, fiquei sem reação, nem podia imaginar que ele sabia o meu nome e balançava afirmativamente pra ele, tentando entender o que ele fazia ali e o que pretendia.
“Lilhia, posso... te pedir uma coisa...”
“Claro...fala...”
“Tu fuuuma?... (não, respondi, meneando negativamente a cabeça), tu me dá um trocadinhoo... depois eu devolvo...”
Me levantei apressada, fui até o quarto e lhe entreguei uns trocados, ele agradeceu e foi embora. À noite, depois de narrar o acontecido, minha avó disparou:
“Esse rapaz, coitado, é doido! Tava internado no Areolino. Voltou tá com duas semanas.” E foi assim que meu jovem narciso me foi apresentado. Achei graça de mim mesma e de tudo que havia pensado sobre ele. Aos poucos pude entender o drama no qual vivia mergulhado. Dois dias depois daquele incidente, falei com uma irmã de Naldo, a Geisa, para saber mais sobre ele e ela me contou que a mania do espelho era um dos primeiros sinais que alguma coisa não ia bem com ele, além do fato de que ia ficando calado pelos cantos e também agressivo. Batia nos irmãos e com o avanço dos anos passou a estranhar o pai, desconhecendo-o a ponto de agredi-lo. Mas tomando os remédios, fazendo o tratamento direitinho, ficava bem.
Eu e Naldo nos tornamos próximos naquele verão, a gente conversava. Naldo ia lá pra casa, só de calção e cigarro aceso, acho que ele se sentia bem na minha companhia. Talvez porque o tratasse naturalmente e falasse sobre o que acontecia com ele sem medo de que ele ficasse magoado. Mas sempre vivi intrigada com seu jeito de falar, baixinho, arrastado e preocupado, pois parecia de propósito, mas não era. Certa vez, ele estava lá comigo na mesa, eu lia jornal, ele tinha entrado como de costume, sem se fazer perceber, ao dar por sua presença, parei de ler. Naquela manhã de agosto, Naldo estava muito quieto e me olhava de um jeito triste e perguntei como ele se sentia.
“Ela... ta vindo de novo...sabe, Lílhia”
“Explica pra mim, como é isso...vai...”
“Eu ouço uma voz... me dizendo umas coisas esquisitas... depois aquelas imagens escuras chegam, fico com medo... parece uma coisa assim bem feia ...uma coisa esquisita, sabe... de noite é pior... eu não durmo...”
“O que ela te diz?”
“Num sei...não me lembro direito...”
Percebi que na verdade não queria me contar, talvez não se sentisse completamente a vontade pra me contar tudo e eu respeitava e não forçava nada. Naldo, então caia em seu mutismo e saía logo em seguida. Naquele dia não parei de pensar no que ele me disse e quando fui no centro comprei um caderno de desenho grande, um lápis e umas coleções. Falei pra ele que era pra tentar colocar no papel e me mostrar depois, pois eu queria entender mais tudo aquilo que acontecia com ele. Por aquela época eu tinha assistido um documentário sobre o Arthur Bispo do Rosário e achava, cheia de fé, que o Naldo poderia também expressar as perturbações de sua alma como o artista do manicômio de Juliano Moreira. Eu entreguei tudo pra ele e esperei uns dias pra lhe perguntar se havia feito algo.
No dia em que dei os presentes houve alegria e surpresa da parte dele, mas o feito não provocou nenhuma reação em Naldo, ao contrário. Dias depois ele me disse que não conseguia escrever nem desenhar e não quis muita conversa comigo. Algum tempo depois, Naldo ficou completamente perturbado, sua irmã me contou cheia de pena dele os últimos acontecimentos. A polícia foi chamada mais o pessoal do manicômio pra levar ele, estava muito agressivo. A força de Naldo aumentava muito, era preciso vários homens pra segurá-lo. Daquela vez porém, foi impossível. Na luta corporal, ele escapou e correu. Disseram que ambulância e viatura policial não foram capazes de alcançá-lo, ou talvez apenas tenham seguido ele sem querer assustá-lo. Naldo correu e correu o dia inteiro, descalço e sem camisa. No fim da tarde, algumas pessoas  disseram tê-lo visto lá na vila do Poti. E os pescadores afirmaram eufóricos que viram um vulto de homem suspenso e paralisado parecendo olhar-se sob a tênue linha divisória das águas encontradas dos dois rios.

09/06/2009

Conto 4: O estranho

O Estranho
Eu me sento todo dia aqui na porta da minha casa de noite e fico olhando o céu escuro. Eu gosto de ficar assim por horas, enquanto os pensamentos transbordam e me levam na enxurrada da imaginação. A rua, o coaxar dos sapos, o cheiro ruim de lama podre, a menina pulando, brincando, gritando e os namoricos de todo dia da vizinha da frente, as pessoas que passam toda hora... mas a música alta e ordinária da vizinha bêbada aos poucos vai sumindo, perdendo a realidade de mim. O que vejo são mistérios e não sou a adolescente e não vivo ali. Em que momento deixei de ver a rua e vi do quarto o homem que me olhava da escuridão? Eu sinto grande excitação e desejo segui-lo. Já estou de pé e ando firmemente para encontrá-lo. Seus passos pesados são rápidos distantes, mas não ao ponto de perder-se de vista. Às vezes, para e olha para trás, talvez, certificando-se de que a mocinha permanece encantada. Algum medo me sobressalta: pra onde vai o estranho? O que pretende? Por que me atrai? Penso em retornar para casa, mas a rua se perdeu e da escuridão só vislumbro uma luz à frente pra onde segue meu estranho. Um poder que me envolve e não me deixa pensar que posso correr perigo. Meu corpo reage para segui-lo, os seios se intumescem como se houvessem leite nele, minha boca tem sede e sinto meu sexo quente e rápido, eu estico os braços mesmo sabendo que não posso alcançá-lo, o coração bate em pancadas desenfreadas e tenho um buraco no estômago, a pupila dilatada na escuridão da noite busca enxergar bem o meu estranho. E o pensamento é um só: EU QUERO FICAR COM ELE. Não existe o menor cansaço na busca. Ele se volta e olha mais uma vez para mim, como se precisasse de aproximação maior, são poucos passos, mas ele abre um porta e desaparece por ela. Eu vou até lá. E tenho um momento de hesitação... pressinto uma faca rasgando abaixo do meu umbigo e subindo até minha garganta, eu não devo temer, aquele homem é um perigo excitante... Adentro e um novo ambiente se forma em meus olhos. Há luz uma luz fosca em que parece enxergo menos que o que podia na escuridão da rua.
Portas imensas surgem na minha frente e preciso escolher uma para entrar. Fecho os olhos, vou caminhando, passos lentos e respiração quase sob controle. Depois da porta escolhida há outra porta, parece maior e mais pesada. Passo por essa outra, passo por outra pesada tenebrosa em seu rangido. Preciso encontrar o homem vestido de capa preta para... não sei bem o quê... Por uns instantes não sei se sou caçadora ou apenas caça.
Uma música saída de um corredor frio e escuro esvai meus pensamentos. Que importa os riscos! ...Ah, a música! Agora está alta, tem energia e vem de um piano! Ela ecoa e posso gritar que ninguém me escuta ali. É quando eu o vejo de costas para mim, alheio em sua arte fúnebre, enquanto eu aprecio aquele momento estranho em minha vida, sinto que sou tocada como um aliciamento, meu corpo freme, as mãos deslizam, as pernas se afastam e fecho calmamente os olhos... a música do meu estranho alterna violência e calma e intensidade de som, enquanto os joelhos se dobram e o corpo devagar, leve, encontra o chão, eu não sinto a frieza do piso velho e úmido, sinto os dedos entrando na carne quente como se outro ser fora de mim estivesse. Ah, que mistura frenética eu começo a mergulhar, é um instante violento em que lanço meu grito imersa na ausência do medo e de tudo. Então paro. Eu paro. E adormeço...
Depois não havia mais perigo naquele prazer, só uma leve calma e rio percebendo que meu estranho de capa preta desapareceu com sua música na noite.

28/05/2009

Conto 3

Um certo amigo

Ele foi o meu melhor amigo de infância, talvez fosse o único naquele período. Meus dias de mundo silencioso eram longos e aquele amiguinho me fazia bem. Estava por onde eu estivesse e enchia a minha cabecinha de idéias, coisas que eu sozinha não teria capacidade. Como eu me lembro dele agora...Wilker era o seu nome? Talvez. Mas é esse nome que ressoa no longínquo espaço da memória... W..i..l..k..e..r... a imagem que me vem dele é de um homenzinho de voz forte, parecendo muito confiante de si. Por outro lado, acho que ele também era muito brincalhão e companheiro, só que tinha vezes que ele era irônico comigo e também outras vezes, enérgico, mandão. Mas eu sabia entender o jeito dele. W. gostava de me proteger dos outros ou talvez de mim mesma, já que era muito boba e fraca. Eu adorava contar minhas coisas para ele, os meus segredos que nem pra minha irmã revelaria. Meu amiguinho era forte e eu era uma menina muito tímida e triste. Eu o admirava e ele ria de mim, do quanto eu era sem jeito e magrela. Um dia pude ter certeza do quanto W. era forte. Ele dizia pra mim: “a gente tem que acreditar que é capaz” e me provava. Naquele dia de manhã eu brincava com a minha irmã no quintal da frente de nossa casa. Minha irmã era mais velha do que eu uns três anos. Sue era esperta e inteligente, eu queria competir com ela, mas era impossível, pois ela era melhor em tudo, eu sabia. Sue era linda e eu não. Sue era maior e eu não. Ela tinha o cabelo enorme e liso e o meu era curtinho que me fazia parecer um moleque... “tinha tanta raiva disso”. “Que menina linda” as pessoas falavam se viam Sue, enquanto eu não existia para aquelas pessoas todas. Tão elegante e formosa era Sue, que eu arregalava meus olhos vivos e escuros de tanto achar que minha irmã era tudo isso mesmo. Mas naquele dia W. me fez acreditar que eu podia ser igual ou melhor do que ela... Minha irmã mascava chicletes fazendo umas bolas grandes e mangava de mim porque eu não fazia nenhuma. Eu bem que tentava, mas o sopro era fraco, fraco.
Você não consegue, Lilinha! Duvido...
Mas logo em seguida, W. veio e me disse aquilo sobre ser capaz, eu me lembro bem que ele falou sussurrando no meu ouvido, bem baixinho. “Acredita, vai” “Vou te ajudar” “A tua bola vai ser bem grande...” Foi aí que falei pra minha irmã:
A minha bola vai ser enorme, tu vai ver só!
Então tentei. Sue não acreditou no que aconteceu. A minha bola foi se formando e crescendo. Crescendo, se enchendo de ar tanto que logo minha carinha desaparecia... eu só ouvia o W. dizer “você consegue” e via também a cara de espanto da Sue. Nunca esqueci a cara de espantada que ela fez, os olhos dela arregalaram com sinceridade e surpresa. Depois minha irmã bem que tentou, mas não conseguiu fazer uma maior. Amei meu amiguinho nesse dia, tão orgulhosa estava de ter vencido minha irmã pelo menos uma única vez.
Mas dali em diante, eu fiquei completamente dependente dele. Eu o admirava e só o que ele dizia tinha importância. Eu não podia existir sem ele naquele mundo. Eu gostava de ficar parada escutando e concordando e foi quando comecei a obedecer meu amigo pra tudo. É certo que eu percebi que W. foi ficando mandão demais, nossa amizade se resumia em eu fazer o que ele queria. Se eu não fizesse, ele ficava zangado comigo e atazanava muito. Ele era teimoso e já não parecia ser tão amigo. Pra mim, ele nem era mais um homenzinho, parecia mesmo um bichinho feio, que só queria me fazer medo e que eu não conseguia me livrar hora nenhuma. W. foi ficando forte e me dava muita ordem. “Faz isso” “Faz aquilo” “Não é pra brincar mais” “conta cem vezes” “repete de novo, sua burra”. Eu ficava muito magoada, mas obedecia, pois ele é quem me ajudava e sem ele eu era muito sozinha e sem amigos.
Quando íamos dormir, quando mamãe apagava a luz, ele inventava de me dar ordens. “te senta na rede e reza” eu com sono não queria. Mas ele era terrivelmente insistente. “te senta, vai” “agora reza três vezes”. Então rezava, mas tinha raiva dele. O que ele pensava que estava fazendo? Quem era ele afinal? Por que não me deixava em paz nem na hora de dormir? Eu não achava mais graça naquela amizade, ele me sufocava, eu não queria dar mais bola pras conversas dele, ele era feio e azedo. Mas ele era mesmo muito insistente e não ia embora. Agora, perto dele ficava quieta, calada, incomodada. W. era cínico, dizia coisas desagradáveis com sua voz esganiçada e dava umas risadinhas. Ele era um rato que queria me obrigar a falar com ele. Mas aquela falsa amizade logo teria um fim. Se eu vivia assustada, espantada com sua presença indesejável, também não queria saber mais dele. Eu tinha que me livrar dele. A oportunidade pouco tempo depois chegou.
Uma dia a caminho do Dina Soares, eu seguia com minhas colegas e resolvemos sentar pra descansar um pouco, antes da campa bater. Nós sentamos em frente a uma velha casa que parecia desabitada. Essa casa tinha calçada e uma árvore frondosa, a sombra era um bom convite para sentar e conversar lorotas. W. estava também lá, do meu lado, mas eu evitava ouvi-lo, não queria conversa com aquele verme mandão. Queria ouvir a conversa da Verinha. Ela começou a contar uma estória de meter medo, as meninas ficaram bem quietinhas e eu também. Não me lembro mais qual era a história, mas era sobre fantasmas, seres de outro mundo que faziam mal às pessoas. Enquanto minha colega contava, eu fui me desligando de sua história e fui pensando na minha própria... então foi que de repente eu olhei pro meu lado e tomei um susto. Não, não foi um susto, pois eu não gritei, não me levantei e nem saí correndo. Na verdade, nem as minhas colegas perceberam o que se passou comigo ali. Eu tive um sobressalto. Meu coração bateu acelerado e senti um oco enorme no estômago. E eu vi e nunca vou me esquecer do que vi. Meu amigo Wilker, ou melhor, meu ex-amigo não existia de fato. Ele era um fantasma, um ser criado por mim. E ele percebeu que eu tinha acabado de descobrir a verdade, pois ele foi ficando opaco, sem cor e foi sumindo, sumindo até desaparecer para sempre. A impressão que tive naquele dia, em pleno calor de uma hora da tarde é que eu o havia prendido na velha casa abandonada, eu me senti vitoriosa e dona de mim como há muito tempo não me sentia.
A campa da escola tocou e saímos correndo e gritando. As meninas gritavam porque ficaram apavoradas com as estórias da Verinha e eu gritava meio que de satisfação, alivio por ter me livrado daquele ser imaginário. Muitas vezes, por anos, passei em frente aquela casa com suas três janelas fechadas, mas passava apressada e expulsava qualquer pensamento ameaçador, até que por muito tempo me esqueci de tudo o que me aconteceu. Outro dia, passei por lá e vi que a casa mudou um pouco, mas estava fechada. Julguei que ele ainda permanece preso e sem possibilidade de voltar...

04/05/2009

Conto 2

Ferro Velho


Sempre vivi mais de uma realidade, se assim me permite chamar, mesmo com o tempo passando e eu não precisando mais ser colocada sobre a mesa. Outra realidade talvez menos palpável para uma criança do que aquela que me enchia os pés de lama. Era outro espaço no qual eu olhava com mais intensidade e menos insegurança, pois ali eu me tornava livre. Os sonhos não se desfazem simplesmente, eles são permitidos. Repentinamente meus pequeninos pés se livravam da lama da rua sete, então estavam a alguns centímetros do chão. Minhas passadas se alargavam pelo terreno plano de mato verde. Eu corria e voava alternando, e sentia um vento frio e suave impulsionando meu cabelo negro para trás, ah que sensação gostosa! Não é fácil descrever o que eu sentia, pois descobria criança aquela magia em minha volta. Tive vontade de gritar: EU POSSO VOAR! EU POSSO VOAR, VEJAM! Porém minha voz embargava, a língua ficava presa e eu só conseguia arregalar meus olhos de peteca. Lembro que Cice segurava a minha mão esquerda com força com medo de cair. Ela parecia espantada ou virava um espantalho nessa hora com seu cabelo puído, feito de lã amarelo e marrom. Cice me lembra uma bruxa nesse instante, eu a vejo rindo de forma horrorosa, apesar disso eu sei que o medo dela é o meu medo, mas não podia transparecer para não parecer fraca aos olhos de W. As artimanhas dele pra mostrar sua força, às vezes funcionava comigo. Eu o respeitava, pois reconhecia sua inteligência e habilidade pra resolver problemas difíceis. Contudo, eu podia ignorá-lo por enquanto, o meu vôo era perfeito, e não precisava pedir sua ajuda.
Saí de perto dele com minha boneca e descemos até o ferro velho do velho Deraldino. Era um bom lugar pra servir de esconderijo. Carros destruídos, amassados e a sujeira piorava com toda aquela chuva. Três dias chovendo e o ferro velho tinha aquele cheiro de xixi e cocô com ferrugem. Mas brincar no ferro velho é bom mesmo assim. Havia ali um carro de carroceria bom de subir, era o meu preferido. Um carro velho mas com uma cor vermelho vivo. Eu subia nele com dificuldade e não sei por que razão fiquei com muita vontade de pular, então pulei e Cice também sem parar, era divertido e fora do comum. Mas foi aí que o carro começou a andar e eu apavorada dei um grito e desci e sair correndo. Corri corri e não olhei pra trás. Eu não voava mais, só corria. Cheguei em casa muito espantada e desconfiada.
Onde cê tava, menina?
Brincando, mãe...

Corrri para o quarto e tive muito medo que algo de ruim pudesse ter acontecido, foi neste instante que lembrei da casa velha, feita de barro, do velho Deraldino que ficava bem próxima do local de onde estava aquele carro. E se o carro tivesse batido na casa do velho? Ela com certeza caía, pois era bem fraca. Se isso acontecesse, eu sabia, era algo muito sério o que eu tinha feito, iam descobrir a minha danação. Será que eu ia ser presa? Pensei no que minha mãe faria, me dava uma pisa de cipó verde do pé de tamarindo, que eu ia ficar arriada uns três dias pelo menos pra aprender a me comportar. E meu pai, ai que vergonha eu teria dele, ele com certeza não me batia, mas ia me olhar com seus olhos cheio de severidade, pra fazer com que eu entendesse que estava errada e pra me mostrar que ele não gosta de coisa errada. Então fiquei daquele jeito quietinha que só eu sabia ficar, quando algo me atormentava e comecei a rezar com pressa. Eu pedia pra Deus não me castigar ou pedia que não acontecesse nada com o velho Deraldino e nem com a casinha dele e eu prometia que nunca mais ia no ferro velho e que ia ser uma boa menina dali pra frente. Nessa hora o W. se aproveitava da situação e ficava me atormentando: “reza direito”, “reza três vezes”... eu fechava os olhos e tinha medo, e se viessem contar pra minha mãe e meu pai. Eu repetia a reza. “reza de novo e ao contrário, burra”. “Reza três vezes”. Ele falava com um tom ameaçador e meu medo fazia obedecer. Mas o sono aos poucos vencia tudo e eu acabava meio que livre dos meus pavores sem terminar a reza.

18/11/2008

Conto 6

A ESPERANÇA DITOSA


D. Ditosa é minha tia avó por parte de mãe. Poucas vezes convivi com ela, mas sempre tive forte impressão e um desejo de tê-la conhecido mais, ter convivido perto. Infelizmente, moramos em cidades diferentes. De sete irmãs e um irmão, ela foi a única que não se casou. Por quê? Sobre isto reinava um silêncio velado.
Tia Ditosa já tem mais de 60 anos, é uma mulher pequena e de aparência saudável. Se guarda tristezas, não aparentava. Ao contrário: parece nutrir alegria e esperança pela vida. Mulher de beleza distinta e delicada, tem a pele amendoada, um rosto redondo, olhos castanhos e cabelos encaracolados. As poucas vezes que a vi conversando, pude admirá-la. Parecia-me bem tranqüila, usava as palavras com segurança, dizia pouco, mas com convicção.
A minha curiosidade por sua vida sempre foi enorme. Eu não entendia, na minha cabeça de adolescente, por que Tia Ditosa, uma mulher tão interessante, não possuía um companheiro, por que não tinha filhos naturais. Seu único filho, se assim pode-se dizer, era um rapaz que ela adotara quando ele ainda era pequeno. Eu olhava pra tia Ditosa e ficava me perguntando: Se meu bisavô Antônio da Luz escolhera os sete maridos para as suas outras filhas, por que não escolhera para tia Ditosa?
Como tudo passa inevitavelmente nesta vida, passou também a minha imensa curiosidade por ela e cheguei a esquecê-la por um certo tempo. Afinal, Nós sempre vivemos aqui na capital, enquanto que ela mora numa pequena cidade do interior, chamada Valença, num belo sítio, distante de nós. Como era discreta e reservada, poucas notícias se tinha dela. Mas um belo dia, ouvi de vovó:
- A Ditosa casou com o José, da finada Jacinta!
Minha mãe, minhas tias, vovó falavam ao mesmo tempo e todas eram só felicidades. Eu mesma fiquei com o coração saltando, numa euforia, numa emoção inexplicável. É certo que ao mesmo tempo me veio aquela curiosidade e não resisti:
- Mas ,vovó, por que só agora ela se casou?
Minha avó ainda emocionada, me contou a história de Tia Ditosa e Seu José. Uma história digna de ser escrita.
Tia Ditosa viveu pouco na casa do pai Antônio da Luz e mãe Rosa. Ainda pequena, foi morar com uma tia, de parentesco distante, que tinha pela menina grande afeição. Essa senhora tinha apenas um filho pequeno, chamado José. E quando Ditosa foi morar com eles, o amor da tia logo se transformou em amor de mãe e assim quis transmitir aos pequenos o sentimento natural de amor entre irmãos.
Mas como o inesperado acontece, esse que muitos chamam de destino havia reservado algo mais para Ditosa e José. Com a convivência, o coração de ambos despertou: O amor entre homem e mulher surgiu cedo nos corações daqueles pequenos jovens.
À medida que foram crescendo, cresciam a amizade e as afinidades, e a paixão foi se confirmando. Mas naquela época, certos valores não podiam ser questionados. Tudo era rigidamente imposto pelos pais. A mãe de Francisco não aceitava contrariedades, considerava-os simplesmente irmãos e não admitiria em nenhuma hipótese aquela união. Quando percebeu a paixão definitiva dos dois, tratou de cortar o mal pela raiz.
- O amor de vocês é pecado.
Mandou José para longe de Ditosa, estudar na capital. E tão logo pôde, obrigou-o a se casar com outra moça, Jacinta.
No entanto, com tia Ditosa não houve jeito. Teimosa e determinada, ela jurou jamais amar outro homem e nem cedeu a pressão de se casar sem amor. Resignou-se.
Mas permaneceu ao lado de sua tia mãe toda uma vida. Apesar da tristeza do gesto autoritário da mãe, sabia separar as coisas, pois era amada por ela com sinceridade.
O tempo se passou. E Ditosa e José se viam raramente. Quando a velha morreu, acharam que os dois ficariam juntos, mas nada disso se deu. Eles, já com mais idade, possuíam responsabilidades, preconceitos e valores herdados de um tempo difícil para aquele tipo de amor.
Contudo, um amor impossível se nutre de esperança. E sobrevive. O amor desses dois resistiu mais de meio século. E venceu também à distância, à família, à sociedade. Com 72 anos de idade, Seu José enviuvou. Quanto a este triste episódio nada posso contar-lhes, pois realmente nada soube.
O que fiquei sabendo por minha avó naquele dia festivo para nós, foi que depois de tantos anos de amor reprimido, Seu José foi atrás de minha tia e deve ter dito a ela que jamais a havia esquecido; que a vida toda tentara agir corretamente com sua esposa, seus filhos e com a memória de sua mãe; no entanto, nada mais o impedia e não podia mais negar a ele e a ela o direito a verdadeira felicidade.
Ao que entendi do que minha avó me contou, Tia Ditosa não hesitou um só minuto. Casaram-se tão rapidamente que surpreenderam a todos. Minha mãe me contou muito tempo depois, que na hora do casório, o juiz perguntou a seu José por que ele estava tão eufórico, e ele respondeu assim:
_ É que são cinqüenta anos de amor reprimido...
Faz cinco que eles estão juntos. Minha avó me disse que eles vivem numa fazenda, lá em Valença e sozinhos, mas que adoram receber parentes e amigos. Felizes? Sim. Nunca mais revi minha tia. Também, ainda não conheço Tio José. Porém me sinto feliz por eles, pelo reencontro dos dois. E dessa história de amor consigo extrair um pouco de esperança a minha vida.

02/11/2008

Conto 1

Dia de chuva

Eu fora sentada ali por meu pai para que não pisasse na lama. A lama real escura imunda e fedorenta que eu pequenina e dispersa no mundo mágico da infância não conseguia perceber. Era uma mesa alta pra mim e meu irmãozinho menor e ali também me maravilhava aquele espaço reduzido e protetor que eu achava ser uma brincadeira. Nós dois íamos ficando apertados por causa dos objetos que minha mãe e meu pai colocavam ao nosso redor, eu logo comecei a achar a brincadeira sem graça. A água, a lama fria tocou os meus pés quando desci. E eu vi com verdade que minha casa estava diferente. E muitas vezes depois eu veria sempre, ano a ano, o desespero de minha mãe e de meu pai e meus irmãos mais velhos. O contato com a lama foi o início do contato com a realidade que tantas vezes tentei escapar e frágil em minha condição humana não era capaz de escapar. Mas o contato com a lama me retirava do mundo que eu via. Aquelas pessoas engraçadas, com suas roupas antigas. A menina Ciça, de cabelo negro amarrado com lenço azul, sempre me visitava e me contava alguma história diferente ou mesmo me orientava dizendo para não subir na árvore, pois ia cair. Havia minha boneca que se sentava no meu colo e cantava uma ou duas músicas engraçadas para que eu não ficasse triste porque não podia brincar na rua nos dias de chuva e estava doente, também me dizia pra não ter medo do meu irmão mais velho só porque ele era mais forte e gostava de bater nos pequenos. Havia meu amiguinho Wilker com quem eu fazia barquinho de papel, ele gostava de me visitar quando as meninas da rua não queriam brincar comigo, algo que não sabia entender como a infância tem essa face de exclusão. Mas W. não deixava que ficasse triste e me ensinava coisas meu amiguinho. Às vezes eu queria até apresentá-lo pra meus irmãos e irmãs e também pra minhas colegas, mas com medo de ficar sem amigo de novo não apresentava. Eu era uma menina tímida, mas não era medrosa e gostava de ficar quietinha olhando as coisas desse mundo, até que o W. e minha bonequinha me chamavam pra suas realidades e eu não fugia, topava a invasão.